Primeiro, vamos dar uma olhada em como os sabonetes funcionam no nível químico. Para fazer um sabonete, é preciso combinar um ácido e uma base, ou base alcalina. O ácido, em nosso caso, é gordura, ácidos graxos e triglicérides, enquanto a base é o hidróxido de sódio NaOH. Essa mistura faz com que os ácidos graxos se separem dos triglicérides e se fundam aos íons de hidróxido, formando um sal que chamamos de sabonete. O sabonete possui duas funções principais:
Ele consegue realizar essas ações porque uma parte da molécula de sabão é hidrofílica, une-se à água, enquanto a outra é hidrofóbica, ou seja, repele a água. A parte hidrofílica permite que os ácidos graxos hidrofóbicos entrem em contato com outras substâncias hidrofóbicas, tais como a sujeira da superfície que está sendo limpa. Quando essa sujeira adere aos ácidos graxos do sabonete, ela é encapsulada por gotas de água. E nesse estado de suspensão, sujeira, óleo e bactérias são facilmente removíveis com água. Isso significa que o sabonete comum consegue eliminar as bactérias. Mas será que o sabonete bactericida elimina ainda mais?
Possivelmente. Porém, devemos levar vários pontos em consideração nesse afã por produtos bactericidas:
De acordo com o CDC (Centros de Controle de Doenças dos EUA), os sabonetes bactericidas não são necessários, já que a maneira mais eficaz para impedir infecções é lavar bem as mãos com sabonete comum e água morna.
Triclosan é um ingrediente ativo comum encontrado em produtos antibacterianos modernos. A maioria dos outros agentes antibacterianos desenvolvidos são feitos para atacar funções orgânicas da bactéria. O Triclosan inibe especificamente a produção de um ácido gorduroso vital para as células bacterianas. O problema é que a bactéria que sobrevive à introdução do Triclosan pode mutar em uma nova variante que resiste aos efeitos do químico antimicrobiano.
Como as bactérias podem resistir ao ataque antimicrobiano? Dr. Stuart B. Levy, da Tufts School of Medicine em Boston, acredita que a resposta reside nas quantidades residuais do agente que persistem após a aplicação. Para aquelas bactérias que sobrevivem, esse sabonete residual é como um grande campo de treinamento. As bactérias mutam e se adaptam para evitar futuros ataques de seu inimigo. Os microbiólogos chamam esse processo de seleção - os micróbios que vivem são selecionados para mutar e reproduzir.
O pior é que alguns agentes antibacterianos perseguem a mesma fisiologia da bactéria que os antibióticos. Isso significa que se uma variante de bactéria em particular desenvolver resistência a um agente antibacteriano em um desinfetante doméstico, ela também será resistente a ataques semelhantes vindos dos antibióticos. Os microbiólogos chamam isso de resistência cruzada.
Outros estudos científicos demonstram que algumas bactérias ficam mais resistentes quando se adaptam. Como o relatório de Levy demonstra, embora alguns sabonetes antibacterianos contenham uma média de 2.500 microgramas de Triclosan, ainda assim pode não ser o suficiente para matar as bactérias mutadas mais resistentes.
Em um estudo, pesquisadores aplicaram sabonete contendo 150 microgramas de triclosan a uma variante da bactéria E. coli em estado natural (não mutada) - comumente encontrada em alimentos crus. Os resultados mostraram que levou duas horas para o agente matar 90% das bactérias. Foi preciso uma quantidade de triclosan duas a quatro vezes maior sob as mesmas condições para matar 90% de uma variante mutada.
E acrescentar químicos antimicrobianos ao sabonete pode ser particularmente ineficaz. Quando os pesquisadores no mesmo estudo expuseram a mesma variante de E. coli a apenas seis microgramas de triclosan puro, ele matou a mesma quantidade de bactérias no mesmo período de tempo [fonte: Levy].
Um estudo de 2005 descobriu que mais da metade da população americana tem uma reação alérgica a pelo menos um dos 10 alergênicos comuns [fonte: AAAAI]. Alguns microbiólogos suspeitam que a emergência do estilo de vida antibacteriano seja o responsável.
Desde o nascimento, as pessoas são bombardeadas pela vida microbiana invisível, que os biólogos chamam de flora ambiental. Esses pequenos organismos estão em toda a parte: na sujeira, nas prateleiras, no ar e até mesmo em seu próprio corpo. Embora alguns causem infecções, a maioria é benigna. Alguns até ajudam, como os lactobacilos, que auxiliam em nossa digestão e matam outras bactérias prejudiciais.
Uma vez que existe muito mais flora do que pessoas, o corpo humano desenvolveu uma forma de evitar infecções e alergias causadas pela vida microbiana. As células T-ajudantes do corpo humano geram uma resposta imune às invasões feitas pelos micróbios. Existem dois tipos de células T-ajudantes: as células T-H1 ajudam outras células a formarem as suas próprias defesas contra invasores microbianos. As células T-H2 supervisionam a produção de anticorpos, que atacam e matam micróbios estranhos que entraram no corpo.
Juntos, esses dois tipos de células ajudantes são a razão de você não morrer sempre que alguém espirra em você, ou quando você corta o dedo. Elas também são a razão pela qual você não sofre de reações alérgicas constantes toda vez que respira.
Para funcionar corretamente, essas células ajudantes devem encontrar micróbios e alergênicos. As inoculações que você recebe quando criança são na verdade variantes mortas ou enfraquecidas de micróbios introduzidos no seu sistema, que o seu corpo usa para construir suas defesas contra outras variantes semelhantes. Em uma casa que utiliza muitos agentes antibacterianos, o sistema imunológico de uma criança pode não ter a chance de encontrar alergênicos suficientes para produzir os anticorpos e defesas adequados contra eles. Os agentes antimicrobianos usados na casa terão matado primeiro a maioria dos alergênicos.
Embora os pais possam controlar a sua casa, eles não podem desinfetar o mundo todo. Assim que a criança deixa a casa excessivamente desinfetada, o seu sistema imunológico subdesenvolvido será exposto a um bando de micróbios e alergênicos.
A resistência ao uso pessoal excessivo de químicos antimicrobianos pode não impedi-lo de entrar em contato com eles. Os antibióticos podem estar presentes no alimento que você ingere e na água que você bebe.
Os criadores modernos usam antibióticos para manter a sua criação saudável. Esses antibióticos permanecem na carne desses animais, que é levada para a mesa do jantar. O escoamento de criadouros e indústrias de processamento podem alcançar águas subterrâneas e outras fontes de onde as pessoas retiram água.
Em julho de 2000, a Conferência de Doenças Infecciosas Emergentes em Atlanta, destacou várias apresentações referentes à relação entre o estilo de vida antibacteriano e a emergência de bactérias resistentes. Um dos apresentadores foi Stuart B. Levy, que apresentou um trabalho intitulado "Produtos Domésticos Antibacterianos: Motivo para Preocupação".
Nesse trabalho, Levy detalha estudos que sugerem que as pessoas podiam estar às portas de um mundo onde as bactérias - devido ao uso de produtos antibacterianos e uso incorreto de antibióticos - poderiam superar a capacidade das pessoas de matá-las.
Cinco anos depois, Levy foi parte de um outro estudo com cinco colegas em sua área, onde as descobertas foram muito diferentes. Os cientistas dividiram 224 residências em duas categorias: aquelas as quais eram dados produtos antibacterianos e aquelas que não os recebiam. O estudo durou um ano e analisou famílias com estilos de vida semelhantes.
O que os pesquisadores descobriram é que não havia diferença significativa na quantidade de bactérias mortas pelo uso de sabonete antibacteriano em relação ao uso de sabonete comum. Eles também descobriram que não havia aumento significativo da presença de bactérias resistentes nas casas que usaram produtos antibacterianos.
Essas descobertas foram surpreendentes. Primeiro, o estudo diz que o sabonete antibacteriano não é a melhor forma na matança de germes que o sabonete comum. Também diz que as bactérias não mutaram em superbactérias nas casas que usaram sabonete antibacteriano. O estudo, intitulado "Produtos de Limpeza Antibacterianos e Resistência às Drogas", contém uma advertência: um ano pode não ter sido suficiente para obter resultados conclusivos [fonte: Aiello].
Dois anos depois, alguns dos mesmos pesquisadores do estudo de 2005 realizaram outra experiência. Mais uma vez, os pesquisadores descobriram que o sabonete antibacteriano não apresentou vantagem sobre o sabonete comum em sua habilidade de matar bactérias. Mas foram também coletados dados que sugeriram que as bactérias estavam, de fato, desenvolvendo cada vez mais resistência cruzada em função do uso de antibacterianos.
Será que é hora de entrar em pânico? Os resultados são inconclusivos. Embora os microbiólogos registrem a mutação de algumas bactérias como resultado de sua exposição a agentes antibacterianos, isso foi feito apenas em laboratório, e não no mundo real. Ainda assim, os cientistas acreditam que a mutação bacteriana pode ser inevitável e continuam os seus estudos.
Então, qual é a melhor maneira de combater os germes? Às vezes o jeito antigo continua sendo o melhor.
Sabonete antibacteriano X sabonete comum
Às vezes o velho e simples sabonete e outros agentes de limpeza testados e aprovados podem funcionar tão bem quanto os produtos antibacterianos de hoje. O bom e antigo sabonete pode não trazer escrito "antibacteriano" em seu rótulo, mas ainda assim mata germes. Às vezes faz um trabalho melhor que o sabonete antibacteriano.
Além disso, o sabonete não é a única coisa que mata bactérias - existem muitos agentes antibacterianos naturais. O suco de limão, por exemplo, muda o PH em células bacterianas, criando um ambiente ácido no qual os micróbios não podem sobreviver. Outras substâncias naturalmente antibacterianas secam as células, matando as bactérias (as bactérias geralmente se desenvolvem em ambientes úmidos). Outros, como alvejante e álcool, destroem completamente as células das bactérias. Ao contrário do ataque dos agentes antimicrobianos, alvejante e álcool simplesmente fazem com que as células lisem, ou se rompam.
Por que não existem bactérias adaptadas aos agentes encontrados no alvejante, álcool e suco de limão? A razão pela qual as bactérias não são resistentes a esses agentes é por que eles não deixam resíduo. Não existe chance das bactérias sobreviventes se adaptarem dentro do ambiente residual, e dessa forma as bactérias são tão suscetíveis ao alvejante e ao álcool quanto eram há 100 anos atrás. Deixe de lado a bomba inteligente antimicrobiana e vá para a grande bomba explosiva chamada alvejante.
E o que fazer para eliminar as superbactérias? Felizmente, as mesmas regras de limpeza se aplicam. O estudo de 2005 mostrou que a doença diminuiu entre os membros da casa que lavaram mais as suas mãos, com ou sem sabonetes antibacterianos [fonte: Aiello]. Praticar bons hábitos de higiene, como usar desinfetantes para as mãos a base de álcool e ficar longe de pessoas resfriadas, continuam válidos. E Stuart Levy nos assegura que se tomarmos os nossos antibióticos corretamente, o estado da flora ambiental retornará "ao que era antes do violento ataque antibacteriano dos antibióticos" [fonte: Levy].
O FDA (US Food And Drug Administration) está analisando a segurança do Triclosan, e o resultado de suas pesquisas será liberado ao público no inverno de 2012.
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